OS MAIAS
Eça de Queirós

 

Entravam então no peristilo do Hotel Central - e nesse momento um coupé da Companhia, chegando a largo trote do lado da Rua do Arsenal, veio estacar à porta.

Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo à portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, passou­-lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escocesa, de pelos esguedelhados, finos como seda e cor de prata; depois apeando-se, indolente, o

poseur ofereceu a mão a uma senhora alta, loira, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram-se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar. Trazia um casaco colante de veludo branco de Génova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz das suas botinas. O rapaz ao lado, esticado num fato de xadrezinho inglês, abria negligentemente um telegrama; o preto seguia com a cadelinha nos braços. E no silêncio a voz de Craft murmurou:

            - Très chic.

            Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava, sentado no divã de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plastrão azul-celeste. O Craft conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o sr. Dâmaso Salcede, e mandou servir vermute, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte literário e satânico do absinto...

Fora um dia de Inverno suave e luminoso, as duas janelas estavam ainda abertas. Sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem, numa paz elísia, com nuvenzinhas muito altas, paradas, tocadas de cor-de-rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam afogando num vapor aveludado, do tom de violeta; a água lisa lisa e luzidia como uma bela chapa de aço novo; e aqui e além, pelo vasto ancoradouro, grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados ingleses, dormiam, com as mastreações imóveis, como tomados de preguiça, cedendo ao afago do clima doce...

- Vimos agora lá em baixo - disse Craft indo sentar-se no divã - uma esplêndida mulher, com uma esplêndida cadelinha griffon, e servida por um esplêndido preto!

            O sr. Dâmaso Salcede, que não despregava os olhos de Carlos, acudiu logo.

- Bem sei! Os Castro Gomes. Conheço-os muito... Vim com eles de Bordéus... Uma gente multo chique que vive em Paris.

Carlos voltou-se, reparou mais nele, perguntou-lhe, afável e interessando-se:

            - O sr. Salcede chegou agora de Bordéus?

Estas palavras pareceram deleitar Dâmaso como um favor celeste: ergueu-se imediatamente, aproximou-se do Maia, banhado num sorriso:

- Vim aqui há quinze dias, no "Orenoque". Vim de Paris... Que eu em podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci-a a bordo. Mas estávamos todos no Hotel de Nantes. Gente muito chique: criado de quarto, governanta inglesa para a filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chique a valer! Parece incrível, uns brasileiros... Que ela na voz não tem sutaque nenhum, fala como nós. Ele sim, ele muito sutaque... Mas elegante também. Vossa Excelência não lhe pareceu?

 - Vermute? - perguntou-lhe o criado, oferecendo a salva.

- Sim, uma gotinha para o apetite. Vossa Excelência não toma, sr. Maia? Pois eu, assim que posso, é direitinho para Paris! Aquilo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os anos, acredite Vossa Excelência, até começo a andar doente. Aquele boulevardzinho, hem!... Ai, eu gozo aquilo! E sei gozar, sei gozar, que eu conheço aquilo a palmo. Tenho até um tio em Paris.

- E que tio! - exclamou Ega, aproximando-se. - Íntimo de Gambetta, governa a França. O tio do Dâmaso governa a França, menino!

             Dâmaso, escarlate, estoirava de gozo.

- Ah, lá isso influência tem. Intimo do Gambetta, tratam-se por tu. Até vivem quase juntos... E não é só com o Gambetta; é com o Mac-Mahon, com o Rochefort, com o outro que me esquece agora o nome, com todos os republicanos, enfim! É tudo quanto ele queira. Vossa Excelência não o conhece? É um homem de barbas brancas... Era irmão de minha mãe, chama-se Guimarães. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran...

EÇA DE QUEIRÓS, Os Maias

QUESTIONÁRIO

1. Indique o assunto do texto e mostre que o seu desenvolvimento em partes lógicas corresponde à localização sucessiva de espaços diferentes.  

1. O assunto do texto é a entrada de Carlos e Craft no Hotel Central, observando estes a chegada dos Castro Gomes. É traçado um pequeno retrato de Dâmaso Salcede e surge a sua apresentação por Ega a Carlos, já no interior do hotel. É feita uma descrição da paisagem exterior observada das duas janelas do gabinete. Segue-se, finalmente, a conversa dos três amigos com Dâmaso, que fala muito dos Castro Gomes e mais ainda de si.
Pode o texto considerar-se dividido em quatro partes lógicas. A primeira corresponde à focalização da entrada do hotel: quando Carlos e Craft estavam para entrar, chegam Castro Gomes e a sua linda mulher, que é descrita em si e na sua «entourage». A segunda parte foca já outro espaço. «Em cima, no gabinete...» e nela se dão alguns traços da personagem Dâmaso, que é apresentado por Ega aos outros amigos. Na terceira parte, há uma bela descrição do espaço exterior descortinado das duas janelas do gabinete. Finalmente, na quarta parte, em que se foca de novo o gabinete, desenrola-se a conversa entre os três amigos e Dâmaso, que fala ainda mais de si do que dos Castro Gomes.


 

2. «O sr. Salcede chegou agora de Bordéus?». Esta pergunta de Carlos não lhe parece ter como fim o mudar o rumo à conversa? Em que medida é que este facto é abonatório da elegância de maneiras de Carlos?

2. A pergunta referida tem realmente a finalidade de mudar o rumo à conversa. Note que ela é posta depois de Dâmaso ter afirmado que tinha vindo com os Castro Gomes de Bordéus. Carlos desejaria que se falasse de Dâmaso e não dos outros que não estavam presentes. Carlos revela, pois, a elegância moral de pretender evitar mexeriquices.

 

3. Há aqui a introdução de duas personagens de Os Maias: Maria Eduarda e Dâmaso Salcede. Segundo a técnica do romance da época, o narrador apresenta as personagens traçando o seu retrato.

3.1. Estes dois retratos (caracterizações directas) estão entre si numa relação de semelhança ou de contraste. Justifique a resposta.

 

3.1. Os dois retratos estão entre si numa relação de contraste. Com efeito, a senhora Castro Gomes (Maria Eduarda) é-nos caracterizada como uma senhora de alta distinção: «alta», «loira», esplendorosa na «sua carnação ebúrnea»,«com um passo de deusa», «maravilhosamente bem feita», «deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar», com «um casaco colante de veludo branco» e brilhando com «o verniz das suas botinas» Há em toda esta descrição a distinção e o aprumo harmonioso da mulher clássica. Há, ainda, toda uma «entourage» de harmonia com a elegância da senhora: «um esplêndido preto», «um rapaz muito magro, de barba muito negra» «indolente e poseur», «uma deliciosa cadelinha escocesa». Toda esta distinção foi sintetizada assim por Craft (e todos reconheciam em Craft um gosto requintado): «Très chic».
Ao contrário, Dâmaso é-nos apresentado como um homem gordo e baixo, de mau gosto, fazendo a figura de novo rico: «um rapaz baixote (notar o diminutivo depreciativo), gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plastrão azul-celeste» (apresentação ridícula) Como veremos na resposta seguinte, estas características verificar-se-ão a seguir, na caracterização indirecta.
Porquê este contraste entre a distinção de Maria Eduarda e a corriqueirice de Dâmaso? É que a primeira estava destinada a ser personagem da tragédia (as personagens da tragédia clássica são sempre nobres) e o segundo estava marcado pelo autor para figurante da crítica de costumes, isto é, da comédia da vida.

 

3.2. Mostre que a caracterização directa de Dâmaso é confirmada, ainda no texto, por muitos pormenores de caracterização indirecta.

 

3.2. Como vimos, Dâmaso surge no pequeno retrato como uma personagem ridícula, quer no físico, quer na maneira pretensiosa de vestir. É isto que se verifica na caracterização indirecta. É isto que ele próprio revela, no seu comportamento e na sua linguagem. Vejamos: Dâmaso, movido certamente por um complexo de inferioridade, faz tudo por se elevar ao nível de Carlos, procurando atrair, a propósito e a despropósito, a sua benevolência e admiração: «O senhor Dâmaso Salcede, que não despregava os olhos de Carlos...» E quando Carlos lhe perguntou «O senhor Salcede chegou agora de Bordéus?», «Estas palavras pareceram deleitar Dâmaso como um favor celeste: ergueu-se imediatamente, aproximou-se do Maia, banhado num sorriso».

Dâmaso surge ainda estupidamente gabarola, não sendo sequer capaz de se aperceber da ironia das Interjeições de Ega. Assim, declara-se sabedor da vida dos Castro Gomes («Conheço-os muito. Esta gente conheci-a em Bordéus»), gaba-se de ter um tio em Paris («Tenho até um tio em Paris») e quando Ega interveio ironicamente («e que tio!... O tio de Dâmaso governa a França, menino!»), esta personagem nem sequer suspeita da ironia de Ega, pelo contrário: «Dâmaso, escarlate, estoirava de gozo».

Revela-se ainda com a mania do chique («uma gente muito chique. chique a valer!») É também caricata a forma como Dâmaso explica a maneira como conheceu os Castro Gomes: «Esta gente conheci-a em Bordéus. Isto é, verdadeiramente conheci-a a bordo...») Ridículos também os seus critérios para avaliar do chiquismo: «criado de quarto, governanta inglesa, femme de chambre, mais de vinte malas...» À pergunta se queria vermute, veja-se o ridículo da resposta: «Sim, uma gotinha para o apetite». Caricata, também, a forma como enaltece Paris: «Aquilo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro... Aquele boulevarzinho, hem! Ai, eu gozo aquilo... E sei gozar, sei gozar, que eu conheço aquilo a palmo...»
Dâmaso é, portanto, uma personagem plana, uma caricatura, um tipo social: o novo rico.

 

3.3. Há também no texto a descrição sugestiva de uma paisagem. Segundo os cânones realistas, a paisagem condicionava as personagens (para os românticos eram as personagens que condicionavam a paisagem). A paisagem descrita surge como enquadramento condicionante de Maria Eduarda ou de Dâmaso? Justifique a resposta.

 

3.3. Aparentemente sem vir a propósito, aparece a descrição impressionista da paisagem observada das duas janelas, ao entardecer. Mas é a seguir a esta descrição da paisagem, em que até os barcos dormiam, cedendo ao afago do clima doce, que Craft desabafa: «Vimos agora ali em baixo uma esplêndida mulher...» A paisagem surge portanto como enquadramento dessa linda mulher, de perfil clássico. Note-se que a paisagem tranquila, de uma paz ílísia, com várias sugestões cromáticas (cor-de-rosa, tom de violeta, a água como uma bela chapa de aço novo) é também ela clássica, apontando mais para o locus amoenus dos clássicos do que para o locus horrendus dos românticos.
 

4. Com base no texto, ponha em evidência a linguagem e os recursos estilísticos mais marcantes de Eça.

4. A linguagem do texto é constituída por um vocabulário simples (com excepção dos estrangeirismos, como «coupé», «griffon», «poseur», «femme de chambre», caracterizantes de uma certa mania da época), mas enriquecida e elevada ao nível literário pela expressividade que ganha no contexto. Os adjectivos mais usuais, os verbos mais vulgares, os advérbios mais comuns surgem-nos com as conotações mais imprevistas.

 

Veja-se, por exemplo, o quanto há de imprevisto nos verbos estacar («um coupé da companhia veio estacar à porta»), despregar (Dâmaso não despregava os olhos de Carlos), esticar («o rapaz esticado num fato de xadrezinho»), acudir («Dâmaso acudiu logo» - acudiu com o sentido de respondeu), banhar («Dâmaso... banhado num sorriso» - note-se o exagero caricato), pilhar («Que eu, em podendo é lá que me pilham» - pilhar, no sentido de apanhar, caracteriza a linguagem burlesca de Dâmaso), estoirar («Dâmaso estoirava de gozo...» - exagero cómico). Como se vê, estes e outros verbos são admiravelmente escolhidos por Eça para dar o burlesco, o caricato de personagens tipos, ou caricaturas.


Mas a adjectivação expressiva é o maior trunfo estilístico de Eça. Atente-se nas seguintes expressões colhidas do texto: «uma esplêndida cadelinha, uma esplêndida mulher e um esplêndido preto» (o adjectivo esplêndido, aplicando-se também à cadelinha e ao preto, tem a função de realçar o encanto da senhora, que se projectava na sua entourage); «deliciosa cadelinha escocesa» (note-se o duplo adjectivo, um antes e outro depois do substantivo, o primeiro subjectivo e o segundo objectivo); «pelos esguedelhados»; «apeando-se indolente e poseur» (valor adverbial dos adjectivos); «uma senhora alta e loira»; «requinte literário e satânico»; «Inverno suave e luminoso» (dupla adjectivação em que um dos adjectivos designa uma nota física e outro, psicológica); «carnação ebúrnea» (adjectivo erudito a conotar uma elegância clássica); «passo soberano de deusa»; «rapaz baixote [diminutivo irónico], gordo, frisado» (tripla adjectivação de conotações caricatas); «céu largo», «uma luz ilísia»; «nuvenzinhas altas, paradas e tocadas de cor-de-rosa» (note a expressividade de «tocadas»); «vapor aveludado» (adjectivo metafórico); «água lisa e luzidia»; «grossos navios»; «largos paquetes estrangeiros»; «ao afago de um clima doce»; «perguntou-lhe afável e interessado» (dupla adjectivação de valor adverbial).
Eça tira também partido de uma palavra larga como o advérbio de modo, que serve não apenas a expressividade da frase, mas também o seu ritmo: «maravilhosamente bem feita» (hiperbolização da beleza); «o rapaz abria negligentemente um telegrama» (o facto de a negligência se referir à abertura do telegrama, que sempre se abre depressa, o «negligentemente» projecta sobre o rapaz um ar de calma e importância).


Em conclusão: o verbo, o adjectivo e o advérbio dão à linguagem de Eça uma visualidade, um impressionismo surpreendente e, por isso, cativante.


A frequência do imperfeito verbal e do gerúndio (aspecto durativo) aumentam ainda esse carácter de visualidade e de impressionismo, sempre presente na maravilhosa prosa de Eça: «dois couraçados ingleses dormiam... cedendo ao afago do clima doce...»


A frequente animização da paisagem (personificação ou prosopopeia) é também uma das causas do impressionismo desta prosa: «a tarde morria numa paz ilísia»; «os longes da outra banda já se iam afogando num vapor aveludado»; «longos paquetes estrangeiros... dormiam... como tomados de preguiça, cedendo ao afago do clima doce...». Estes efeitos ao nível semântico das palavras ressaltam mais numa prosa como a de Eça, que se movimenta em períodos curtos, libertos da complicada ordem inversa das palavras, tão do gosto dos clássicos.

 

 

Modificado de BORREGANA, António Afonso - O Texto em Análise II. Setúbal: Ed. do Autor, 1987.